Democracia e religião, razão e moral.
O Debate do Século XXI

Este sítio está disponibilizando, nas páginas seguintes, trechos do debate entre Jürgen Habermas e Joseph Ratzinger, ocorrido na Academia Católica da Baviera em janeiro de 2004. O tema do encontro foi "as bases pré-políticas e morais do estado democrático". O 'pensador da iluminação' e o então 'cardeal guardião do dogmatismo' recaíram, obviamente, em questões referentes à 'razão' e à 'fé'.
Razão e paixão sob limites
por Márcia Cristina Pimentel
Data dos tempos antigos, o embate entre razão e liturgia, razão e mito. Pelo pensamento político grego, a razão era a chave fundamental para o estabelecimento da democracia. Para Clístenes, a liberdade de expressão e de debate pressupunha consciência por parte daquele que fazia uso da palavra. Os argumentos não podiam ter valor se o orador que os proferia não tivesse ciência ou maior noção sobre aquilo que falava.
Por este ângulo, a experiência democrática pressupunha não apenas a igualdade dos cidadãos, mas também o reconhecimento da autoridade, já que exigia abordagem racional, consciência e conhecimento sobre as matérias em debate. A razão punha-se, assim, num campo distinto ao da liturgia. É certo que a experiência litúrgica requer conhecimento do rito, porém seu objetivo não é a investigação e o conhecimento do desconhecido e, sim, a transposição para o desconhecido, para um mundo ‘outro’, de onde se sairá magicamente renovado e fortalecido no retorno à realidade da vida.
Já a argumentação racional exigia, a princípio, fundamentação, comprovação. Colocar-se-ia, assim, num campo também distinto ao do mito, cujo proferimento requereria apenas a crença nas palavras em si mesmas. Apesar destes pressupostos, na práxis democrática, o pensamento político grego sempre se deparou com a manipulação dos argumentos e a falta de compromisso com a racionalidade e a verdade por grande parte dos oradores. Tal problemática é ampla e complexa, pois parece envolver não apenas aquele que profere as palavras, mas também aquele que as ouve.
O fato de se falar para alguém torna necessário que se argumente a partir de crenças e conhecimentos compartilhados pelo outro. Provavelmente, foi contando com o não-conhecimento do ‘fato ocorrido ou da matéria em debate’ pelos ouvintes, que grande parte dos oradores gregos buscavam dramatizar suas palavras, acionando os estados emocionais a fim de promover simpatia, comoção, identificação com seus pontos de vista e, assim, conquistar a adesão do outro ao seu discurso retórico.
A razão, como ela era imaginada pelo pensamento grego, tornava-se, assim, ‘impura’. Confundia-se com mitos, com palavras que, embora não fundamentadas racionalmente, convenciam e criavam credulidade, fossem tais palavras manipuladas pelo forjamento de falsas provas, pelo suscitamento de estados emocionais, ou pela mera sustentação de uma crença comum.
Em Carne e Pedra, Richard Sennett sugere que o fluxo da retórica dramática e apaixonada tornou os cidadãos atenienses incapazes de agir racionalmente, questão, dentre outras, que desestabilizou os princípios daquela democracia. Mais que isso, a razão também era vítima das contradições impostas por crenças temporais e autóctones, que não iremos aqui explicitar para não nos estendermos. O fato é que, convencidos por discursos catárticos e manipuladores, os cidadãos tornaram capazes de decidir sobre a morte de outros cidadãos, para depois se arrependerem, insurgindo-se contra os oradores que os incitaram àquela decisão. Algo parecido com a eleição de Collor, ou de outros políticos contemporâneos, e a posterior reclamação de seus eleitores, que dizem sentir-se por eles enganados.
Habermas x Ratzinger
| Os artigos, de janeiro de 2004 e que este sítio disponibiliza, do teórico racionalista Jürgen Habermas e do teólogo e então cardeal Joseph Ratzinger tangenciam, assim, uma problemática milenar da humanidade ocidental: o relacionamento entre razão e liturgia, razão e mitos. Há, contudo, de se entender o debate no contexto dos novos paradigmas surgidos a partir do movimento iluminista, onde Habermas, tido como da segunda geração da Escola de Frankfurt, posiciona-se dentro de uma orientação de mundo não-metafísica. | * |  Jürgen Habermas e Joseph Ratzinger, atual papa Bento 16, em janeiro de 2004,
Munique
|
 O encontro dos dois foi promovido pela Academia Católica da Baviera | Um estado, alicerçado por uma democracia de base racionalista e não-metafísica, tem como continuar sustentando normas comuns - como, por exemplo, regras em relação ao aborto - mesmo quando suas comunidades reúnem concepções de mundo tão plurais? Pode uma ordem jurídica ser legitimada auto-referencialmente, a partir de uma argumentação racional, independente de tradições religiosas e metafísicas? Diríamos que estas são duas das principais questões que Habermas comenta em seu artigo, o qual Ratzinger responderá, expondo seu ponto de vista. |
| É fundamental, sobretudo, que se compreenda a conversação entre ambos no contexto da contemporaneidade, ou de uma certa apreensão com aquilo que Habermas chamou de “modernização descarrilada” e que pode “esmigalhar a solidariedade cívica”. O quadro é de privatização e mercantilização de espaços antes de domínio da política, de aprofundamento do individualismo, de descrença e de ausência de utopias, de crescimento de fanatismos religiosos e de manipulação biotecnológica da matéria e do corpo vivos, que parecem mexer diretamente com os antigos limites entre natureza e técnica. | * |  No encontro Habermas e Ratzinger discutiram "as bases pré-políticas e morais do
Estado democrático". |
Longe de achar que tal discussão esgote o número de questões e problemáticas com as quais nos deparamos na contemporaneidade, gostaríamos, contudo, de lançar algumas perguntas, já que estamos num sítio que se pretende discutir tópicos relacionados à arte. Que questões estariam colocadas para a arte (que não apenas o sustento do artista)? Que reflexões devemos levantar e trazer a público? Como devemos acessar o mundo sensível? O que me inculca são as estreitas relações entre os estados democráticos (de suposta base racional) e a cultura hegemônica midiática que não apenas exibe evidentes traços (melo)dramáticos, mas que também, como sugere Maria Rita Kehl, “produz uma nova metafísica da vida humana”.
Márcia Cristina Pimentel - atriz, produtora cultural, jornalista e mestre em Comunicação
Autora do Blog Cultura das Mídias
|
|