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  •  POETAS

    Manoel de Barros
    Assim, fiz uns poeminhas pescados numa fala de João
    João! O fazedor de amanhecer
    O guardador de...

    No livro das ignorãças
    Poesia. Quase toda
    De poemas rupestres

    Escrevo um livro sobre nada
    Um livro de pré-coisas
    De impressões, poesias

    Porém em matéria de poesia
    Encontro-me com a face imóvel
    Como o retrato do artista quando coisa

    Assim, fiz uns poeminhas pescados numa fala de João
    João! O fazedor de amanhecer
    O guardador das águas

    De poemas concebidos sem pecado
    No exercício de ser criança
    Simples ensaios fotográficos

    De memórias inventadas na infância
    Cantigas para um passarinho à toa
    E arranjos para assobios

    Um concerto a céu aberto para solo de aves
    Um compêndio para uso dos pássaros
    Nesta gramática expositiva do chão
    Mais poesias e poemas

    no escritório de ser inútil
    passo horas descascando palavras.
    Vou até o caroço delas.
    Ontem levei a palavra "alma" para descascar.
    Descobri que é uma palavra linda,
    escura e de olhos baixos.

    (trecho de entrevista concedida à revista Good Year, para Ana Acioly, 1989)

    Nasci para administrar o à-toa
    o em vão
    o inútil.

    Pertenço de fazer imagens.
    Opero por semelhanças.
    Retiro semelhanças de pessoas com árvores
    de pessoas com rãs
    de pessoas com pedras
    etc etc.

    Retiro semelhanças de árvores comigo.
    Não tenho habilidade pra clarezas.
    Preciso de obter sabedoria vegetal.

    (Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)

    E quando esteja apropriado para pedra, terei também
    sabedoria mineral.
    Os governos mais sábios deveriam contratar os
    poetas para o trabalho de restituir a virgindade a
    certas palavras ou expressões, que estão morrendo
    cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas
    podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a
    poesia tem a função de pregar a prática da infância
    entre os homens.
    Se for para tirar gosto poético vai bem perverter a
    linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso
    ir até às licenciosidades. Temos de molecar o idioma
    para que ele não morra de clichés. Subverter a sintaxe
    até à castidade: isto quer dizer: até obter um texto
    casto. Um texto virgem que o tempo e o homem
    ainda não tenham espolegado.
    O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso
    propor novos enlaces para as palavras. Injectar
    insanidade nos verbos para que transmitam aos
    nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira
    vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas isso é
    tão antigo como menino mijar na parede. Só que foi
    dito de outra maneira.
    Se você prende uma água, ela escapará pelas
    frinchas. Se você tirar de um ser a liberdade, ele
    escapará por metáforas. No internato, longe de casa,
    eu não sabia o que fazer e fiz um aparelho de ser
    inútil. E comecei a brincar com ele. Um padre disse:
    - Não presta para nada; há-de ser poeta!

    "Retiro semelhanças de árvores comigo.
    Não tenho habilidade pra clarezas.
    Preciso de obter sabedoria vegetal."
    Experimentando a manhã dos galos

    ... poesias, a poesia é

    - é como a boca
    dos ventos
    na harpa
    nuvem
    a comer na árvore
    vazia que
    desfolha a noite
    raíz entrando
    em orvalhos...

    floresta que oculta
    quem aparece
    como quem fala
    desaparece na boca
    cigarra que estoura o
    crepúsculo
    que a contém
    o beijo dos rios
    aberto nos campos
    espalmando em álacres
    os pássaros

    - e é livre

    como um rumo

    nem desconfiado...

    O menino ia no mato
    E a onça comeu ele.
    Depois o caminhão passou por dentro do corpo do
    menino
    E ele foi contar para a mãe.
    A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que
    o caminhão passou por dentro do seu corpo?
    É que o caminhão só passou renteando meu corpo
    E eu desviei depressa.
    Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
    Eu não preciso de fazer razão.
    (c) www.artes.com